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109 anos do Hospital António Lopes: uma história de serviço com os olhos postos no futuro
06 setembro 2026
Categoria: SCMPL

109 anos do Hospital António Lopes: uma história de serviço com os olhos postos no futuro

109 anos do Hospital António Lopes: uma história de serviço com os olhos postos no futuro.

A Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Lanhoso assinalou ontem, dia 5 de setembro, o 109.º Aniversário do Hospital António Lopes / Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Lanhoso. A manhã ficou marcada por homenagens, missa solenizada e uma sessão solene marcada pela gratidão, pelo reconhecimento e pelo compromisso com o futuro. “109 anos depois, esta Misericórdia continua a fazer aquilo para que nasceu: estar ao lado de quem precisa, com competência, com rigor e, acima de tudo, com humanidade.” — Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Lanhoso Na sua intervenção o Provedor destacou os cinco eixos que orientam a ação da Instituição — Pessoas, Inovação e Melhoria Contínua, Sustentabilidade, Património e Comunidade — e apresentou alguns dos projetos e investimentos que estão a preparar o futuro da Misericórdia.

A cerimónia foi também um momento de reconhecimento aos colaboradores distinguidos pela sua antiguidade, dedicação e contributo para a história desta Casa.

Partilhamos, abaixo, o discurso do Provedor na íntegra:

"É com um sentimento profundo de agradecimento, e devo dizê-lo, também de orgulho, que vos dou as boas-vindas a esta sessão solene. Há dias, no calendário de uma Instituição, que são apenas mais um dia. Há dias que pesam de forma diferente, que nos obrigam a parar, a olhar em redor e a medir o caminho percorrido. Hoje é, para todos nós, um desses dias.

Antes de mais, permitam-me uma breve reflexão sobre a própria palavra que nos une nesta Casa: Misericórdia. Vem do latim e junta duas ideias simples: misère, a miséria, o sofrimento; e cor, cordis, o coração. Misericórdia é, literalmente, ter o coração voltado para quem sofre. Não é caridade distante, praticada de longe, sem sujar as mãos. É, antes, uma disposição do coração que se traduz em ação concreta, todos os dias, junto de quem mais precisa.

É essa disposição, essa palavra tão antiga e tão atual, que continua a dar nome e sentido a tudo o que aqui fazemos, 109 anos depois de termos começado.

Celebramos 109 anos de uma Instituição que nasceu do compromisso de gente da Póvoa de Lanhoso com os mais frágeis. Homens e mulheres com uma enorme vontade, decidiram que ninguém nesta terra deveria ficar entregue a si próprio nos momentos de maior fragilidade. Esse gesto fundador, humilde na sua origem, mas imenso nas suas consequências, inscreve-se, de resto, numa tradição muito mais antiga: a das Misericórdias portuguesas, nascidas há mais de cinco séculos, que ao longo desses séculos, souberam sempre reinventar-se sem nunca por em causa o propósito que lhes deu origem.

A nossa Misericórdia é herdeira dessa história maior, mas é, sobretudo, autora da sua própria história: uma história de 109 anos, escrita, dia após dia, por quem aqui trabalhou e trabalha.

Esse compromisso, firmado há mais de um século, é também aquilo que garante hoje um rumo de sucesso e de perenidade ao nosso Hospital, que ao longo de mais de cem anos nunca deixou de responder ao seu tempo, nem de perder de vista o propósito que o fez nascer. Isso não é pouco. Instituições nascem todos os dias, poucas resistem a um século, menos ainda chegam a ele reforçadas e não apenas sobreviventes.

Permitam-me que sublinhe: 109 anos não são um número redondo. Não estamos aqui a celebrar uma data simbólica, preparada de antemão para grandes discursos e grandes festejos, como se fosse um centenário ou um bicentenário a exigir pompa especial. Estamos, sim, a celebrar algo mais simples, o facto de continuarmos participativos, ativos e a crescer, ano após ano, sem que tal nos seja exigido.

Isso não acontece por acaso. Acontece graças ao trabalho de muita gente, um trabalho que regra geral se traduz num esforço silencioso, mas persistente, feito longe dos holofotes, todos os dias do ano, inclusive hoje, enquanto aqui celebramos. Enquanto discursamos nesta sala, há colaboradores nossos, neste preciso momento, a prestar cuidados, a servir refeições, a acompanhar um idoso, a confortar uma família.É a esses, sobretudo, que este dia pertence.

É justamente esse o espírito que quero trazer à minha intervenção: não o de um balanço fechado, arrumado e concluído, como quem fecha um livro e o coloca na estante. Quero trazer-vos o retrato de uma Instituição em movimento. Uma Instituição que olha para trás com gratidão, mas que vive, sobretudo, virada para a frente, com os pés bem assentes no presente e o olhar posto no futuro.

Desde sempre que mantemos a premissa de desenvolver um trabalho firme, ao serviço da nossa missão. Fazemo-lo assente em cinco eixos estratégicos que orientam toda a nossa ação: as pessoas que aqui trabalham, a forma como inovamos e melhoramos continuamente, a sustentabilidade das nossas respostas sociais e de saúde, o património que gerimos e cuidamos, e o compromisso permanente com a nossa comunidade. Não são cinco eixos separados, estanques, sem relação entre si. São cinco eixos orientadores que nos permitem desenvolver a nossa atividade de forma integrada.

Antes de entrar em cada um desses eixos, permitam-me uma breve pausa para recordar, em traços gerais, quem somos hoje. Porque talvez nem todos os presentes tenham noção da amplitude do que esta Instituição, humildemente, procura abraçar.

Somos o Hospital António Lopes, que dá corpo e nome à nossa vocação de saúde, assentes nos princípios fundacionais de António Ferreira Lopes.

Somos a ERPI S. José, onde acompanhamos os nossos idosos na fase da vida em que mais precisam de companhia e de cuidado.

Somos as nossas unidades de cuidados continuados, onde a paciência e a dedicação se medem em meses, não em minutos. Somos a creche e o pré-escolar, onde as primeiras palavras e os primeiros passos de tantas crianças desta Vila acontecem sob o nosso olhar atento.

Somos o CATL, que acompanha as crianças depois da escola, quando os pais ainda estão a trabalhar.

Somos o Serviço de Apoio Domiciliário, que leva a nossa Casa até à casa de quem já não pode vir até nós.

Do primeiro ao último dia de vida, esta Misericórdia procura estar presente. Não há, praticamente, fase da vida humana em que não estejamos, de alguma forma, ao lado de quem connosco vive nesta terra.

É este arco, do berço à velhice, da urgência clínica ao acompanhamento sereno de uma tarde na ERPI, que torna esta Instituição tão singular e tão exigente. Porque gerir esta diversidade de respostas, com o mesmo rigor e a mesma qualidade em todas elas, não é tarefa simples. É precisamente por isso que precisamos de eixos estratégicos claros, que nos permitam olhar para esta complexidade sem nos perdermos nela.

Permitam-me, então, que partilhe convosco cada um destes caminhos: os cinco eixos que, no enquadramento dos nossos Planos de Atividades, nos servem de bússola e de exigência, ano após ano.

EIXO I — AS PESSOAS

Começo pelas pessoas porque é justo que assim seja, não devendo começar por outro lado. Esta Misericórdia é feita de gente, e é com esta gente que trabalhamos todos os dias no cumprimento da nossa missão de cuidar dos outros. Uma Instituição pode ter os melhores equipamentos, os edifícios mais modernos, os protocolos mais ambiciosos, os relatórios mais bem elaborados: mas sem pessoas competentes, motivadas e dedicadas, nada disso tem verdadeiro valor. É a pessoa que cuida, não o edifício. É a pessoa que acompanha, não o protocolo. Por isso, continuamos a investir, de forma consciente e continuada, na qualificação, na motivação e no envolvimento das nossas equipas, porque sabemos, por experiência de muitos anos, que não há qualidade de serviço sem competência e sem coração da parte de quem o presta. É com esse propósito que vamos avançar com a criação de uma Academia Digital, financiada, em parte, através do Fundo de Compensação Salarial. Esta Academia vai permitir a cada colaborador construir o seu próprio percurso formativo, ajustado não apenas às exigências legais e normativas que o setor nos impõe, mas também aos valores que nos definem enquanto Instituição: o nosso Código de Ética e Boa Conduta e as regras de proteção de dados que todos nos comprometemos a respeitar. A Academia Digital vai funcionar como um verdadeiro banco digital de pequenas formações, disponível a quem, quando e como o serviço permitir, porque sabemos que a formação só é eficaz quando se ajusta à vida real de quem a recebe e não o contrário. Não faz sentido pedir a um colaborador que troque um turno por uma formação distante e inconveniente. Faz sentido levar a formação até ele, no momento e no formato que a sua vida permite. Vamos investir na capacitação em Inteligência Artificial. E aqui quero ser claro: não o fazemos por moda, nem para andar atrás de uma tendência passageira que amanhã será substituída por outra. Fazemo-lo porque acreditamos, com convicção, que a Inteligência Artificial pode e deve ser uma ferramenta ao serviço das pessoas, uma ferramenta capaz de libertar tempo das tarefas repetitivas, burocráticas, administrativas, e devolvê-lo àquilo que só um ser humano sabe verdadeiramente fazer: cuidar de outro ser humano. Nada substitui um olhar atento, uma mão que aperta outra mão, uma palavra de conforto dita no momento certo, um silêncio partilhado junto de quem sofre. A tecnologia, quando bem usada, não afasta as pessoas, devolve-lhes tempo para estarem, de facto, presentes. É esse, e só esse, o critério que aplicamos a cada nova ferramenta digital: libertar tempo para cuidar melhor. Paralelamente, vamos reforçar a formação nas ferramentas digitais que já usamos no nosso dia a dia, para que cada um retire delas o máximo proveito, sem que ninguém fique para trás por não dominar o que hoje já é um instrumento comum de trabalho. Não posso, ainda, deixar de referir, com moderada satisfação, e digo moderada porque sei que o caminho ainda é longo, as atualizações salariais decorrentes dos Contratos Coletivos de Trabalho negociados com os sindicatos. Essas atualizações incluem a revisão do subsídio de refeição e, já a partir de 2027, a aprovação do dia de aniversário como dia de descanso para o trabalhador. São conquistas específicas do setor das Misericórdias, fruto de negociação séria e persistente por parte da União das Misericórdias Portuguesas, mas são, acima de tudo, sinais concretos de reconhecimento por quem faz as Misericórdias funcionarem, todos os dias, muitas vezes em condições extremamente exigentes, por vezes em horários que a maioria de nós preferiria não ter. Dito isto, e mesmo reconhecendo estas atualizações, sabemos que temos de conseguir ir mais longe em termos salariais, para continuar a motivar, a cativar e a fixar quem connosco trabalha. Não escondo esta limitação, nem quero escondê-la, é um compromisso que aqui deixo, publicamente, para os anos que se seguem, sabendo que a justiça com quem cuida é, também ela, parte da nossa missão. Porque cuidar é saber agir em emergência, quero destacar, com particular carinho, a parceria com a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários da Póvoa de Lanhoso. Esta parceria já permitiu formar 108 pessoas em Suporte Básico de Vida, um número que, por si só, diz muito sobre o investimento que temos feito na preparação das nossas equipas para o momento em que, infelizmente, a formação teórica se torna ação urgente. Destaco, dentro deste número, toda a equipa da infância, formada especificamente em Suporte Básico de Vida Pediátrico. Porque as crianças não são adultos pequenos, e uma emergência com uma criança exige preparação própria, específica, rigorosa, e sobretudo calma, quando tudo à nossa volta nos pede pressa. É este tipo de parceria de proximidade construída com quem está, literalmente na porta ao lado, pronto a acorrer em minutos, que dá segurança às nossas crianças, aos nossos utentes e a quem com eles trabalha todos os dias. É também um bom exemplo daquilo que esta Vila sabe fazer bem, instituições diferentes, com missões diferentes, a somar forças por uma causa comum. Permitam-me, ainda, uma palavra sobre um aspeto que, por vezes, é esquecido quando se fala de recursos humanos: o reconhecimento não vive só de números na folha de vencimento, embora estes, como já disse, sejam essenciais e mereçam continuar a evoluir. Vive também de um ambiente de trabalho onde cada pessoa se sinta ouvida, onde as sugestões de quem está no terreno cheguem a quem decide, onde o esforço de cada turno seja visto e valorizado, mesmo quando ninguém bate palmas. É esse ambiente que procuramos construir todos os dias, com avanços e, também, com dificuldades que não escondemos.

EIXO II — INOVAÇÃO E MELHORIA CONTÍNUA

Passo agora ao segundo eixo: a inovação e a melhoria contínua. E quero começar por uma clarificação que considero importante, porque a palavra "inovação" anda hoje um pouco gasta de tanto se usar: não inovamos por inovar. Não trazemos novas ferramentas para esta Misericórdia para exibirmos modernidade, nem para figurarmos bem num relatório de atividades. Cada nova ferramenta que introduzimos tem um único objetivo, claro e inegociável: cuidar melhor. Se uma solução não passa este teste, simplesmente não avança, por mais apelativa que pareça. É com esse propósito que vamos introduzir a aplicação Healthy para gestão do processo de cuidados na ERPI S. José, reforçando a organização e a qualidade do acompanhamento aos nossos idosos. É uma ferramenta que vai permitir um registo mais rigoroso, uma comunicação mais fluida entre equipas, porque a informação sobre o estado de um residente não pode perder-se na passagem de turno e, no fundo, um cuidado mais atento a cada residente, com a sua história e as suas necessidades próprias. Porque cada pessoa que ali vive não é "mais um utente", é alguém com um nome, uma família, uma vida inteira vivida antes de chegar até nós, e é assim que queremos continuar a tratá-la. Reforçámos, também, de forma significativa, a nossa cibersegurança, com a substituição da firewall por um equipamento de alta gama, dotado de inteligência artificial. Sei que, para muitos de vós, este pode parecer um investimento pouco visível no dia a dia, sem o imediatismo de uma nova ala ou de um novo equipamento clínico. Mas quero que fique claro: proteger dados é, também, proteger pessoas. Os dados que guardamos são histórias clínicas, são vidas, são momentos de fragilidade que nos foram confiados por quem em nós acreditou. Protegê-los com rigor é uma forma, talvez menos evidente, mas não menos importante, de honrar a confiança que a nossa comunidade deposita em nós, todos os dias, muitas vezes sem sequer se aperceber disso. No seguimento deste esforço, renovámos o parque informático das nossas unidades de cuidados continuados, garantindo que as ferramentas do dia a dia acompanham as exigências do trabalho que ali se faz e que ninguém perde tempo, tão precioso, à espera que um computador antigo “decida” funcionar. Aproveito, ainda, este momento para referir que, este ano, renovámos a nossa certificação pela Norma ISO 9001:2015 e fizemo-lo pelo vigésimo ano consecutivo. Insisto neste ponto, porque acho que merece ser sublinhado, porque vinte anos, ditos assim tão depressa, podem passar despercebidos. Vinte anos de certificação não são um certificado emoldurado numa parede, bonito de se ver, mas vazio de significado. São vinte anos a provar, todos os dias, sistematicamente, sem exceção, sem folga, que fazemos o que dizemos que fazemos e que o fazemos bem. É um compromisso silencioso, renovado ano após ano, auditoria após auditoria, com o rigor e com a verdade e, também ele, uma forma de respeito por quem em nós confia. Permitam-me deixar aqui um princípio que orienta toda esta área: a melhoria contínua não é um projeto com data de fim. Não há um dia em que possamos dizer "está feito, podemos parar". Cada certificação renovada, cada sistema atualizado, cada processo revisto é apenas mais um degrau numa escada que não tem, nem deve ter, topo definitivo. É este inconformismo saudável, esta recusa em considerar-nos "suficientemente bons", que nos tem permitido, ano após ano, continuar a merecer a confiança de quem recorre a nós.

EIXO III — SUSTENTABILIDADE

O terceiro eixo é o da sustentabilidade. E quando falamos de sustentabilidade, nesta Casa, não falamos apenas, nem sobretudo, de contas equilibradas, embora estas sejam, obviamente, condição necessária. Falamos, sobretudo, da sustentabilidade da nossa capacidade de resposta à comunidade. De pouco serve sermos sustentáveis do ponto de vista financeiro se essa sustentabilidade não se traduzir em capacidade real de dar resposta a quem precisa de nós, hoje e amanhã. Mantemos e reforçamos os protocolos com a ULS de Braga e com a ULS do Alto Ave, apoiando ativamente na diminuição das listas de espera em Cirurgia Vascular e nas consultas de Dermatologia, Cardiologia e Urologia. São áreas onde sabemos que a espera pesa, onde cada resposta antecipada representa, muitas vezes, uma diferença real na vida de uma pessoa e da sua família. Desde agosto deste ano, iniciámos um novo protocolo com a ULS de Braga para exames de apoio à consulta de obesidade, incluindo ecografias, endoscopias e biópsias. Uma resposta numa área de saúde pública que, todos sabemos, tem vindo a ganhar uma importância crescente, que exige respostas integradas, não apenas consultas isoladas. Passámos, também, a integrar a Cirurgia Pediátrica como nova especialidade cirúrgica no âmbito do SIGIC, através do PCPMACNO (o Plano de Curto Prazo de Melhoria do Acesso à Cirurgia Não Oncológica). Isto significa, para lá da sigla técnica que nos cansa de tão longa, que cada uma destas parcerias é uma resposta concreta a uma lista de espera para cirurgia, a uma pessoa com nome e rosto, a uma família da nossa área de influência que deixa de esperar, que vê o seu filho ou a sua filha operados sem a angústia acrescida de mais meses de espera. Destaco, com particular satisfação, que no âmbito do protocolo CTH foi publicada a Resolução do Conselho de Ministros n.º 11/2026, que veio aumentar o valor protocolado em cerca de 1,3 milhões de euros, elevando o volume global para aproximadamente 4,3 milhões de euros. Este reforço é uma resposta direta às listas de espera para consultas e para cirurgias, e reconhece, de forma objetiva e quantificável, o trabalho que temos vindo a desenvolver na área da saúde, um reconhecimento que não é apenas simbólico, mas que se traduz em capacidade real de resposta. Importa referir, e deixo isto também como sinal de disponibilidade futura, que o Hospital António Lopes tem capacidade instalada para aumentar, ainda mais, o Acordo de Cooperação de CTH. Estamos prontos para fazer mais, sempre que nos for dada essa possibilidade. A nossa capacidade não está esgotada, está disponível. Quero, ainda, deixar uma palavra de reconhecimento às equipas clínicas e administrativas que tornam possível esta articulação com as Unidades Locais de Saúde. Negociar protocolos, acompanhar a sua execução, garantir que os números se traduzam em consultas marcadas e cirurgias realizadas. Isto é trabalho de bastidores, feito com paciência e persistência, que raramente é visto, mas que é absolutamente decisivo para que tudo o resto aconteça. Sem esse trabalho silencioso, os protocolos seriam apenas papel assinado. É a dedicação de quem os executa que os transforma em cuidado real.

EIXO IV — PATRIMÓNIO

Chego ao quarto eixo: o património. Este é, talvez, o eixo onde o trabalho é menos visível no imediato, menos falado no dia a dia, mais discreto. Poucos param diante de uma bomba de calor para admirar o seu valor. Mas é também o eixo onde os efeitos vão marcar a nossa Instituição durante décadas. Investir em património é, muitas vezes, um ato de fé no futuro, porque quem planta hoje sabe que não será, necessariamente, quem colhe amanhã, mas planta na mesma, porque sabe que a Instituição continuará muito para além de cada um de nós, muito para além do seu próprio mandato. A candidatura ao PRR, para as nossas unidades de cuidados continuados, permitiu fazer transformações profundas: a requalificação dos edifícios, a modernização de equipamentos e de mobiliário, a criação de novos serviços, como uma sala de Snoezelen e um equipamento robotizado para fins terapêuticos, a foca Nuca. São investimentos que, à primeira vista, podem parecer técnicos ou distantes, quase de ficção para quem não os conhece de perto, mas que se traduzem, na prática, em mais conforto, mais estímulo sensorial e mais qualidade de vida para quem ali é cuidado. Um sorriso a mais, uma agitação a menos, um momento de calma conquistado. Instalámos bombas de calor na Unidade de Longa Duração e Manutenção, alimentadas pela energia que nós próprios geramos, substituindo as atuais caldeiras. Este investimento permite poupanças significativas nos consumos de gás e é, assim, a nossa forma de assumir responsabilidade ambiental, sem nunca perder de vista que cada euro poupado é um euro que pode ser reinvestido na nossa missão principal, que não é poupar energia, mas cuidar de pessoas. Estamos, neste momento, a requalificar o polivalente do CATL, que passará a auditório da Instituição, com sistema multimédia de última geração e capacidade para cerca de 150 pessoas. Será um espaço com acesso e áreas de suporte autónomas, um espaço que, tenho a certeza, vai servir esta comunidade em muitos momentos que ainda estão para vir, incluindo futuras celebrações como esta, o nosso 110º (centésimo décimo) aniversário. Estamos a requalificar os nossos parques infantis: o do CATL já está concluído, e os dos edifícios de creche e pré-escolar encontram-se em curso. Porque as crianças mais pequenas da nossa comunidade merecem espaços seguros, bonitos e estimulantes para crescer. Porque olhamos para a mobilidade do futuro, adquirimos duas viaturas 100% elétricas para o Serviço de Apoio Domiciliário, que hoje percorrem, em silêncio e sem emissões, o concelho e as ruas da nossa vila, levando o cuidado a quem não pode vir até nós. Quero sublinhar algo que considero importante: cuidar do património não é, para nós, um fim em si mesmo, é uma condição para cuidar melhor das pessoas. Um edifício requalificado não é apenas para ser mais bonito, terá de ser mais seguro, mais funcional, mais digno de quem nele vive ou trabalha. Cada obra que aqui referi tem, por trás, uma pergunta simples que sempre fazemos antes de avançar: isto vai melhorar a vida de quem usa este espaço? Só avançamos quando a resposta é, claramente, positiva.

EIXO V — COMUNIDADE

Chego, por fim, ao quinto eixo: a comunidade. Digo sem qualquer hesitação, porque é a minha convicção: este eixo é, no fundo, a razão de ser de tudo o resto. As pessoas, a inovação, a sustentabilidade, o património, tudo isto só faz sentido se, no final, servir a nossa comunidade. Se não servir, é desajuste institucional; se servir, é missão cumprida. Continuamos a apoiar quem mais precisa, através da Cantina Social e do programa PESSOAS 2030: respostas que, sei bem, não fazem manchetes nem geram grandes fotografias, mas fazem, todos os dias, a diferença entre um prato de comida quente e um dia sem ele, entre o isolamento e o acompanhamento, entre sentir-se esquecido e sentir-se, ainda, parte de algo. Continuamos presentes nas iniciativas do nosso Concelho e continuamos a dinamizar as nossas próprias tradições. É o caso do desfile de Carnaval, que se afirma cada vez mais como um evento de referência a nível supraconcelhio, trazendo cor, alegria e gente de fora para dentro da nossa Vila, mostrando que a Misericórdia também sabe celebrar a vida e não apenas cuidar da doença. É o caso, também, da Procissão Arciprestal em Honra de Nossa Senhora da Misericórdia, que continua a mobilizar instituições e a trazer centenas de pessoas ao centro da nossa terra, num momento de fé e de comunhão que atravessa gerações e que nos lembra, todos os anos, a raiz espiritual que está na origem desta Santa Casa. Partilhados convosco os nossos caminhos, os cinco eixos que orientam esta Misericórdia, chega o momento de agradecer. E fá-lo-ei com a convicção de que aquilo que aqui foi dito não seria possível traduzir em obra se estivéssemos alheados da realidade que nos rodeia. Nenhuma Instituição, por mais forte que seja a sua vontade, caminha sozinha. Quero agradecer às entidades aqui presentes: À Câmara Municipal, companheira de tantos projetos, muitos deles nascidos precisamente da vontade comum de servir a Nossa Terra e a sua Gente; À ULS de Braga e à ULS do Alto Ave, parceiras indispensáveis na nossa missão assistencial na área da saúde, sem as quais grande parte do que hoje aqui referi simplesmente não existiria; À Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários, com quem partilhamos o mesmo sentido de serviço e a mesma disponibilidade para agir quando é preciso, a qualquer hora do dia ou da noite; Às Misericórdias aqui presentes, que nos transmitem força para continuarmos a contribuir para o papel incontornável que as Misericórdias desempenham no movimento assistencial em Portugal, um papel que, sei bem, cada uma de vós conhece de perto, na vossa própria terra; Por fim, mas nunca em último lugar, a todas as Irmãs e Irmãos desta Misericórdia, guardiões de uma missão que atravessa gerações e que hoje, mais uma vez, aqui se reafirma, perante todos vós.

Não posso terminar sem deixar uma palavra especial. Este ano, alguns dos nossos funcionários vão ser distinguidos pela sua antiguidade ao serviço da nossa causa. A eles, um agradecimento que nenhuma medalha, por mais bem cunhada que seja, consegue traduzir na totalidade. Vocês são a prova viva de que esta Instituição não se mede em anos, mede-se em pessoas que decidiram, dia após dia, ano após ano, muitas vezes sem que ninguém as visse ou aplaudisse, continuar a vestir esta camisola. Obrigado por tudo o que já deram. Obrigado, desde já, com toda a confiança que a vossa história nos permite ter, por tudo o que ainda vão dar.

Caras Amigas e Amigos,

109 anos depois, esta Misericórdia continua a fazer aquilo para que nasceu: estar ao lado de quem precisa, com competência, com rigor e, acima de tudo, com humanidade.

Não escolhemos o caminho mais fácil nem o mais rápido; tentamos, sempre, escolher o caminho mais certo. O nosso foco continua a ser fazer a diferença na comunidade, uma pessoa de cada vez, um dia de cada vez. Queremos trabalhar bem para sermos, hoje e sempre, uma resposta segura e de confiança para quem a ela recorre, seja em que momento da vida for.

Sei que os discursos correm o risco de soar a listas de obras e de números. Mas quero dizer, neste momento final, que por trás de cada eixo que aqui referi, de cada protocolo, de cada equipamento, de cada obra, está sempre a mesma coisa: uma pessoa que precisa e uma pessoa que responde. É essa equação simples, repetida milhares de vezes por ano, todos os anos, há 109 anos, que faz desta Misericórdia aquilo que ela é.

Que os próximos anos nos encontrem tão empenhados como hoje, tão fiéis à nossa missão como sempre fomos.

Que daqui a mais alguns anos, quem aqui estiver possa dizer, com a mesma verdade com que o digo hoje, continuamos de pé, continuamos a servir, continuamos fiéis àquilo que nos fez nascer há mais de um século.

Que esta chama, acesa há 109 anos por gente desta terra, continue acesa por muitos e muitos anos, nas mãos de quem vier depois de nós.

Assim, Deus nos ajude. Obrigado"

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